Francesco Cazzin

Texto do crítico italiano Francesco Cazzin

para a revista “Emergere del Possibile”

http://emergeredelpossibile.blogspot.com.br/2015/12/vertieres-i-ii-iii.html

VERTIÈRES I, II, III

Vertiéres I, II e III (Brasil, 2014) é verdadeiramente um dos mais belos filmes dos últimos anos, e isto pela força libertadora que emana de todas as partes, uma força que está por todos os lados, em cada fotograma, até mesmo nas cenas nas quais as crianças rezam, ou carregam a bandeira, até mesmo entre as ruínas de uma igreja, porque, a nosso ver, aquilo que Louise Botkay faz com iminência é um gesto mais político do que etnográfico, e que tem a ver com marcar uma espécie de corte em nossos corpos, e que faz com que, destas feridas, possa sair um fluxo rompedor, puro movimento de libertação através das imagens. Não é o uso da infância que nos dá esta impressão, não é na convicção, além de tudo equivocada, que seja este o período de liberdade; na verdade, sabemos bem que o anarquismo da infância é fundamentalmente manipulável, porque é próprio de quem deve depender dos outros e que tudo absorve e digere sem limites, sucumbindo, no final, às leis: a infância, aqui, é sabiamente desenvolvida por Botkay em sua parte mais estreitamente ligada ao jogo, em sua ação mais próxima do desejo, força simultaneamente criadora e destruidora, uma disjunção, portanto, positiva, que contempla ambos os termos sem anulá-los e que faz, portanto, do jogo-desejo aquilo que torna possível continuar a desenvolver a dinamicidade, o movimento, em suma, o fluxo da vida, que coexiste estreitamente com o próprio filme, que parece feito não somente de matéria, mas de sonho. Se tentamos pensar nos adultos, no adulto do capital, logo, no burguês, o jogo não é jogo, não é desejo, mas passatempo, entretenimento, fuga, em suma, um retalho do tempo, qualquer coisa que, portanto, tem estreitamente a ver com uma falta, com o “para além do trabalho”, sempre implicando o trabalho como medida e, assim, o não-trabalho leva ao trabalho, e não se está jamais fora dele. Do esquizofrênico, se tanto, podemos dizer que está fora disto. E a criança? Esta, segundo alguns psicólogos, utiliza o jogo também como simulação do adulto, de seus papéis. A criança faz então, ensaios (a menina que brinca de mamãe, de esposa etc.), logo, o desejo de desejar qualquer coisa que ainda existirá, que ainda falta, mas que já é projetado pela família, sem que nos esqueçamos de que esta encontra-se estreitamente vinculada à comunidade, objeto de investimento do desejo. Chegamos ao ponto no qual podemos desdobrar uma das potências de Vertières I, II, III, ou ainda, mostrar um feixe de possibilidades outras, nas quais o jogo-desejo não é simulação, mas sim uma corrida sem meta, corrida do desejo errante, que não deseja aquilo que falta e que não deixa de desejar, nas quais há a necessidade da corrida e esta necessidade a vemos refletida sobre o olhar, que fixa a câmera e nos põe na situação de estarmos sendo vistos pelo filme. Fácil de criticar como qualquer coisa ligada a uma etnografia simplória, o filme de Botkay nada tem a ver com isto e nada tem a ver conosco, que continuamos a ser iludidos e desiludidos, que não acreditamos em nenhuma liberação: não significa, claro, que tenhamos encontrado a liberdade no Haiti, porque é evidente, a partir do filme, como a liberação passada tem pois implicado uma submissão a uma outra ditadura, ainda mais desonesta, mas a coisa fundamental neste curta-metragem é colher a liberação não na liberdade, mas na igreja destruída, na escola, na bandeira, na natureza: liberação como processo, não como finalidade atingida, que se colhe enquanto rompe vínculos, jamais em sua realização. Cinema que deve ser vivido nos minutos do filme, e nem um segundo a mais: não são os momentos em que os presos saem para o pátio para respirar, mas são minutos que nos remetem à solidão do cárcere, presos como estamos em malhas tão estreitas, nas quais nada nos resta – se quisermos ser pessimistas – a não ser poucos minutos de libertação…a libertação é movimento, não é um ato feito, já realizado, não é liberdade: assim, fiquem felizes se Vertières I, II e III chegar a lhes inspirar isto, e, no fundo, nunca se pode saber se um cinema assim tão honesto – na verdade, é quase certo – não deixe rastros.