Phillipe-Alain Michaud

Texto de Phillipe-Alain Michaud
Téorico, curador, responsável pela coleção de filmes do Centre Pompidou e Museu de arte moderna de Paris

Os dois primeiros filmes de Louise que vi, já há alguns anos, foram realizados com um telefone celular: o primeiro debruçava-se sobre uma cerimônia vodu no Haiti; o segundo havia sido filmado em um banho turco, como os de Istambul. Eu me lembro de ter tido a nítida sensação de estar vendo pela primeira vez verdadeiras obras feitas com um telefone celular, e não uma mera sucessão de imagens. O telefone celular permite (e, em alguma medida, exige) uma espécie de espontaneidade brutal na captação das imagens. A resolução baixa e os enquadramentos imprecisos tornavam-se opções estéticas: a cerimônia vodu era assim filmada de modo quase clandestino, com a artista circulando em meio a dançarinos em transe e aparentemente inconscientes da presença da câmera. A montagem, no entanto, a um só tempo complexa e precisa, transformava o material visual bruto em uma verdadeira construção. De modo análogo, no confinamento do banho turco, o telefone celular permitia desvelar sem vulgarizar a intimidade daqueles corpos femininos, ao passo que os grãos altamente saturados da imagem evocavam uma experiência gráfica, como se se tratasse de um desenho orientalista na era da reprodutibilidade digital. Me parece que esses dois filmes, realizados nos primórdios de sua carreira de artista-cineasta, continuam bastante emblemáticos do modo como Louise concebe e utiliza o dispositivo fílmico (e talvez também a fotografia): por um lado, seja utilizando a tecnologia digital ou a película super-8, ela mobiliza os seus conhecimentos das técnicas de enquadramento e de montagem adquiridos ao longo de seus anos de estudo na FEMIS (a principal escola de cinema da França) e de suas experiências como diretora de fotografia em filmes mais convencionais; por outro, ela utiliza a câmera para captar do modo mais íntimo possível a presença extática dos corpos em sua relação “inocente”, espontânea ou originária com o real e com a natureza. Esses dois aspectos de seu trabalho parecem entrar em contradição um com o outro, como se o acontecimento da imagem – uma figura alcançando a visibilidade – tivesse necessariamente que colocar em questão o dispositivo destinado a recebê-la. Penso que todos os futuros comentários sobre o trabalho de Louise Botkay deverão dar conta dessa marca singular que a meu ver constitui a originalidade de sua intuição e de seu método: trata-se de um uso negativo ou contraditório da técnica que visa a desfazer as convenções da linguagem cinematográfica a de fim de deixar seu objeto aparecer sem privá-lo de sua aura.